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Corrida contra o tempo

Marcos Cintra - Folha de S.Paulo
23 de out. de 1994
2 min de leitura

Atualizado: 5 de abr. de 2021


Não elegemos Fernando Henrique no primeiro turno das eleições para premiar-lhe com a oportunidade de fazer turismo na Praça Vermelha. Queríamos dar-lhe tempo para negociar as reformas necessárias para a estabilização e retomada do crescimento da economia brasileira.

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Infelizmente, as recentes declarações do presidente-eleito no sentido de que as reformas constitucionais não recomendariam pressa, indicam que tudo ficará para mais tarde.

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Foi para viabilizar a consolidação imediata do Plano Real que a sociedade brasileira se agrupou em apoio à sua candidatura. A campanha presidencial convenceu-nos de que esta seria sua prioridade absoluta. Com certeza, não lhe falta competência para dar início imediato aos trabalhos de remontagem da economia brasileira. Mas pode estar faltando apetência.

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Inúmeras medidas e decisões poderiam ser tomadas, ainda com o atual Congresso. Há que vencer a implacável corrida contra o tempo em que se transformou o Plano Real. A indefinição dos rumos fundamentais da economia brasileira terá um trágico efeito na continuidade da atual estratégia anti-inflacionária. Na medida em que as reformas estruturais tardam — e, assim, tornam-se cada vez mais difíceis de serem concretizadas —, restam ao governo apenas as providências conjunturais de política econômica, de curto prazo, tais como elevação de juros e medidas administrativas para monitorar o mercado cambial e o nível de demanda agregada. Sobem os juros cortam-se prazos de crédito, aumentam-se os compulsórios, restringe-se o movimento de capital, reduzem-se impostos aqui, aumentam-se acolá.

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Qualquer analista econômico percebe, nitidamente, o rápido esgotamento dos instrumentos à disposição do governo para domar a inflação. O Plano Real foi implementado de cabeça para baixo. A primeira fase de um plano de estabilização — que seriam as reformas estruturais que eliminariam as pressões primárias da espiral inflacionária — foi jogada para a última etapa por um Congresso que se mostrou incapaz e irresponsável, ao refugar diante da reforma da Constituição. O Plano Real extirpou magistralmente a inércia inflacionária. Mas não aguentará mais seis meses de inflação mensal de 3 70.

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O ponto fundamental é que a política econômica do governo, hoje, se resume em não deixar a economia crescer. Remédio amargo, mas aceitável diante da perspectiva de imediata ação contra as fontes primárias da inflação. Mas totalmente inaceitável, caso a nova administração caminhe no sentido da indecisão e da procrastinação.

MARCOS CINTRA, doutor em economia pela Universidade Harvard (EUA), e professor titular da Fundação Getulio Vargas.

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