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Eleições e poder econômico

Marcos Cintra - Folha de S.Paulo
20 de nov. de 1994
2 min de leitura

Atualizado: 29 de jan. de 2024

Durante a campanha eleitoral, a Folha revelou o escândalo dos bônus eleitorais, que resultou na renúncia de um dos candidatos a presidente.

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A então ombudsman da Folha, Junia Nogueira de Sá, afirmou que a matéria comprovou "o que já se sabia nos bastidores da campanha, que bônus estavam sendo vendidos com desconto pelos partidos a empresários que precisavam 'lavar' dinheiro...".

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Embora sem comprovação, o que preocupa nesta acusação é a conclusão de que não se conseguiu avançar na busca de maior transparência nos financiamentos de campanha.

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Permanece a suspeita de que as doações continuaram a ser feitas de forma irregular. Só que agora implicam prejuízos para a sociedade, pois os bônus podem ter permitido saídas de dinheiro para o "caixa 2".

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Até quando os legisladores vão acreditar que basta aumentar a burocracia para se eliminar comportamentos sociais indesejáveis? A experiência dos bônus fracassou.

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Além do mais, mesmo que respeitados, os bônus só permitiriam maior transparência no financiamento de campanhas. Mas em nada contribuiriam para solucionar problema do abuso do poder econômico.

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A democracia está circunscrita aos candidatos ricos. O maior problema é regular os gastos e, nesse mister, a criação dos bônus teve resultado negativo. As fortunas pessoais dos candidatos tornaram-se fator de discriminação contra os menos aquinhoados.

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Os bônus apenas aumentaram os custos do sistema eleitoral. Mais burocracia, mais controles ilusórios, mais dissimulação, maiores custos.

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Melhor seria a sociedade bancar os custos de campanha, através de fundos partidários. O governo definiria valores realistas para o custeio das campanhas, proibindo outros gastos além dos financiados, pagos e desembolsados pelo setor público.

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Seria mais simples, mais barato e evitaria as vantagens do poderio econômico. E haveria mais transparência. Trata-se de custo aceitável para se garantir condições mais justas para todos os candidatos.

MARCOS CINTRA, doutor em economia pela Universidade Harvard (EUA), e professor titular da Fundação Getulio Vargas.


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