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Reforma fiscal não pode esperar

Marcos Cintra - Folha de S.Paulo
18 de jun. de 1995
3 min de leitura

Atualizado: 30 de mar. de 2021

Embora todos desejemos ser otimistas, não há como negar que o futuro do Plano Real está envolto em incertezas. Não se trata de vaticinar cenários desastrosos. Mas seria igual irresponsabilidade esconder as preocupações e ocultar as dificuldades que terão, mais cedo ou mais tarde, que ser enfrentadas.

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O Plano Real não está consolidado. A inflação inercial foi, magistralmente, atacada pela introdução da URV e pela troca da moeda, realizadas no ano passado.

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Mas o que se previa ter sido a primeira fase do programa de estabilização -as reformas estruturais da economia e do setor público- acabou não ocorrendo em 1993/94, como proposto, originalmente, pelo então ministro da economia Fernando Henrique Cardoso.

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As fases seguintes foram implementadas, mesmo sem que os pré-requisitos estruturais tivessem sido atendidos. E na ausência da âncora estrutural, o governo não teve outra opção que a de lançar mão das âncoras cambial e de juros para segurar a inflação.

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Os riscos dessa estratégia são conhecidos.

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Em economias relativamente fechadas, como a brasileira, o uso da âncora cambial para combater o aumento dos preços internos exige dosagem cavalar tanto na valorização da moeda doméstica quanto na abertura comercial. Contudo, essa estratégia tem efeitos secundários perigosos.

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Há sete meses o país sofre de brutal reversão em sua conta comercial. Nesse cenário, há necessidade de tratamento emergencial para atenuar suas contra-indicações, entre elas um desastre na balança de pagamentos. A droga aplicada foi a elevação dos juros internos, para financiar os déficits em conta corrente.

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Por sua vez, esse tratamento causou outros desequilíbrios. O mais grave, sem dúvida, é a contração econômica e o resultante desemprego. Indesejável por si só, a recessão, que já avança por toda a economia brasileira, também contribui para o déficit público, não apenas por seu impacto negativo na arrecadação tributária, mas também pela elevação dos custos da dívida pública.

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Em artigo na “Gazeta Mercantil”, neste fim-de-semana, o ex-presidente do Banco Central Antonio Lemgruber chama a atenção para a importância das variáveis fiscais no fenômeno inflacionário e diz que ``pode-se mesmo afirmar que a inflação é hoje considerada mais como um fenômeno fiscal do que monetário".

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Nesse cenário, os fantasmas se manifestam. Apesar do controle dos gastos públicos federais, a arrecadação começa a fraquejar e a ameaça de desajuste fiscal volta a rondar o horizonte.

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A recessão já vitimou a arrecadação de tributos como o IPI, a Cofins e o PIS. A arrecadação tributária da União aumentou em maio exclusivamente por força dos impostos recolhidos nas importações e nas declarações do Imposto de Renda. No mais, a retração da atividade econômica já se faz sentir na queda do recolhimento de tributos.

Em resumo, a âncora cambial e os juros altos fatalmente irão desembocar em crise fiscal. Se isso acontecer, estarão criadas as condições para um novo surto inflacionário.

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Nesse caso, os riscos da reindexação aumentarão, na medida em que a inflação acumulada atingirá proporções impossíveis de serem absorvidas apenas por aumentos de produtividade.

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Esse perigo já é visível hoje, com os aumentos nas tarifas públicas (principalmente no transporte coletivo), majoradas em mais de 30%.

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A saída para o impasse está nas reformas fiscais -a tributária e do setor público- e na aceleração das privatizações.

Contudo, a reforma administrativa pública não parece estar recebendo prioridade do governo, apesar dos esforços do ministro Bresser Pereira. A quebra de monopólios públicos está sendo mais para inglês ver, enquanto a continuidade das privatizações está sendo mais lenta do que o desejável.

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Quanto à reforma tributária, lembro apenas a manchete desta Folha no último dia 9: ``Governo vai propor reforma tributária lenta e gradual".

Marcos Cintra Cavalcanti de Albuquerque, doutor em Economia pela Universidade de Harvard (EUA).

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