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Anistia fiscal já

Marcos Cintra - Folha de S.Paulo
25 de out. de 1992
2 min de leitura

Atualizado: 13 de set. de 2024

O jurista José Carlos Graça Wagner jogou na mesa mais um item na discussão sobre a reforma tributária: a anistia fiscal. Para zerar o passado, propôs o lança mento de um imposto opcional de 1% sobre o patrimônio dos contribuintes. O recolhimento daquele valor seria a carta de alforria que tornaria aquele contribuinte quite com suas obrigações tributárias passadas.

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A proposta de Graça Wagner é muito interessante. A implantação de um novo modelo tributário exige que os agentes econômicos se vejam livres da carga negativa que a estrutura de impostos —hoje totalmente falida— vem impondo ao setor produtivo nacional. É preciso evitar que continue sendo um peso morto a ser carregado pelos agentes econômicos.

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Vejo, porém, dois inconvenientes na proposta. Em primeiro lugar, os que aceitaram recolher o novo imposto estão se autodeclarando sonegadores. Não há com avaliar quantos contribuintes terão coragem de tomar essa decisão.

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O segundo inconveniente é a tradicional argumentação de que não se deve premiar os sonegadores. Nem punir os contribuintes cumpridores de seus deveres, com a feroz fiscalização que, certamente, se abaterá sobre os que se recusarem a "comprar" sua carta de alforria.

Assim, aproveitando a proposta básica de Graça Wagner, gostaria de sugerir uma alternativa.

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Todos os contribuintes sofreriam o lançamento, de recolhimento-obrigatório, de um imposto de estabilização. Graça Wagner propõe o valor de 1 % do-patrimônio. Mas poderia ser, por exemplo x % do -faturamento dos últimos três anos; ou y % do lucro declarado dos últimos cinco anos; ou z % dos rendimentos declarados do último ano. Porém, poderiam ser abatidos todos os impostos já recolhidos ao longo do mesmo número de anos usado no cálculo do imposto devido.

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Com isto, os que não sonegaram nada teriam a recolher. Os que se evadiram da tributação fariam os pagamentos devidos. O passado estaria totalmente zerado a partir do lançamento deste imposto. Imposto de estabilização, pois a arrecadação deveria estar vinculada à formação de um fundo provisório de reserva orçamentária, como propôs Graça Wagner, e também à retirada da dívida social.

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Anistia fiscal é importante quando se deseja começar vida nova. Mas seria imoral, e irrelevante economicamente, se ocorresse em um contexto onde as práticas de sonegação persistis- z sem. Daí a necessidade de acompanhar uma reforma tributária profunda, capaz de inaugurar um novo regime tributário, como o Imposto Único sobre Transações.

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Conceder anistia e os contribuintes continuarem sonegando, como fatalmente ocorrerá se a reforma tributária for feita nos moldes clássicos, é injustificável.

Marcos Cintra Cavalcanti de Albuquerque, doutor em Economia pela Universidade de Harvard (EUA)

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