Lutar pelo Imposto Ănico
- Marcos Cintra
- 19 de dez. de 2007
- 3 min de leitura
A CPMF estĂĄ morta e seus algozes afirmam terem feito um favor ao paĂs. Para eles, a contribuição era o pior dos tributos por ser regressivo e cumulativo. A primariedade de seu raciocĂnio chegou Ă s raias da comicidade ao concluĂrem, horrorizados, que os gastos com o âimposto do chequeâ superavam as despesas familiares com arroz e feijĂŁo! Resta indagar o que pensam entĂŁo do ICMS e do Imposto de Renda que custa para a famĂlia mediana brasileira quase o mesmo que todas suas despesas com alimentação, saĂșde, educação, lazer, habitação, etc., incluindo o arroz e o feijĂŁo.
Esses mesmos adversĂĄrios da CPMF serĂŁo chamados em breve a avaliarem seus tenebrosos diagnĂłsticos contra o tributo, e âcontrariis sensuâ, a comprovarem os ganhos do paĂs com a sua eliminação. CaberĂĄ a eles comprovar que a partir da sua extinção o paĂs terĂĄ mais competitividade em suas exportaçÔes, os pobres comerĂŁo mais arroz e feijĂŁo, a distribuição de renda irĂĄ melhorar, as empresas nĂŁo mais se verticalizarĂŁo, os salĂĄrios reais aumentarĂŁo, os preços cairĂŁo e os bancos terĂŁo significativos aumentos de depĂłsitos de clientes que guardavam dinheiro embaixo do colchĂŁo sĂł para economizar impostos. Vamos aguardar ansiosamente esses dados.
Mas, e se o governo aumentar outros impostos para recompor a arrecadação perdida? Se âinvestirâ mais no aumento da fiscalização e no confisco, como tem ameaçado? Na saĂșde, a CPMF representa 50% dos gastos federais e estaduais. Ă certo que, sem a CPMF, terĂĄ de acontecer cortes dramĂĄticos nos serviços mĂ©dicos e hospitalares Ă disposição do paciente. EstarĂĄ finalmente aberto o caminho para a proposta do Imposto Ănico.
O ambiente polĂtico oferece hoje um oportuno espaço para a tramitação da emenda constitucional do Imposto Ănico. Se Lula nĂŁo vetar a emenda do senador Jorge Bornhausen, conforme prometeu, e o PT nĂŁo mantiver o fiel compromisso com o veto, essa tramitação poderĂĄ ocorrer ainda no primeiro trimestre de 2008, iniciando a fase final de sua aprovação.
A verdade Ă© que a movimentação financeira se revelou um tributo justo, simples, barato, eficiente e que vem suscitado enorme interesse por parte de tributaristas como base de sustentação da base tributĂĄria do futuro. NĂŁo causou distorçÔes no mercado, nĂŁo distituiu exportaçÔes e nem desintermediação bancĂĄria. Ampliou o financiamento dos investimentos, incorporando Ă s receitas pĂșblicas a arrecadação dos impostos sobre atividades subterrĂąneas. Revolveu a sonegação, evasĂŁo e elisĂŁo com uma incidĂȘncia sobre o comĂ©rcio de drogas, contrabando, atividades informais e corrupção.
A CPMF arrecadou R$ 32 bilhÔes e equivalia a 60% do IPI (R$ 28 bilhÔes) e a 40% do IRPJ (R$ 54 bilhÔes), sem as distorçÔes danosas causadas por esses tributos, e poderia aumentar ainda mais a arrecadação para aliviar a carga sobre a folha de salårios e os investimentos, baixar juros e acabar com a nefasta contribuição patronal sobre a folha, aumentando as ofertas de emprego formal e eliminando o déficit fiscal. Esse é o tributo que poderå salvar o fisco.
Agora, sem ela, pensar e debater a movimentação financeira Ă© necessĂĄrio ressurgir. Mas nĂŁo como a CPMF de alĂquotas fragmentadas e altas. A reforma tributĂĄria deve ser redirecionada para a modernização do sistema e a retomada do Imposto Ănico. EstĂĄ na hora de repensar os paradigmas que norteiam o projeto de reforma tributĂĄria para o paĂs.
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Marcos Cintra Cavalcanti de Albuquerque é doutor em Economia pela Universidade Harvard, prof. titular e vice-presidente da Fundação Getulio Vargas. E-mail: mcintra@marcoscintra.org