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  • Marcos Cintra - Folha de S.Paulo

Afinal, o que foi o Cruzado?


Muitos devem estar fazendo a mesma pergunta. após nove meses de vigência do Plano de Estabilização Econômica, a inflação oficial anualizada se aproxima de 30%, e a efetivamente sentida pela população já que deve andar perto de 50%. Será que tudo não vai passar de um curto período de bonança? Será que dentro de um ou dois anos a inflação rondará novamente os patamares de 200%?

Não há como negar que a economia vem atravessando um período de grande euforia. A produção aumentou -a taxa de crescimento do PIB poderá superar 9%-, os salários se expandiram, em termos nominais, cerca de 34% nas faixas mais baixas e, 17% nas mais elevadas, o comércio cresceu mais de 30% desde a reforma monetária, os índices de falência foram praticamente nulos, e a criação de novas empresas atingiu índices surpreendentemente elevados.

Apesar deste desempenho favorável, no qual assume papel de relevo o fato de a inflação haver caído drasticamente se comparada à de inícios do ano, há um clima de enorme angústia quanto ao futuro da economia. Possivelmente o fato negativo mais visível, responsável pelo declínio do otimismo nos rumos da economia, acha-se na profunda deterioração das contas externas, e nas expectativas de que o país não deverá contar, no futuro, com a entrada de poupança externa nos níveis desejáveis para a sustentação do crescimento interno auto-sustentado.

Infelizmente, é preciso admitir que a economia brasileira demonstra sofrer de uma grave inconsistência macroeconômica. Viveu-se, até o momento, uma situação em que todos os agentes econômicos ganharam com o programa de ajustamento, o que pode parecer paradoxal numa campanha de combate à inflação. Como a renda é composta de rendimentos do trabalho e de rendimentos do capital, a única possibilidade de compatibilizar aumentos nas duas parcelas é através da elevação da renda total. E isto efetivamente ocorreu, principalmente pelo aproveitamento da capacidade ociosa. Foi esta folga que possibilitou aos agentes econômicos auferirem ganhos de renda sem concomitante perdas para alguns.

A partir do terceiro trimestre, a capacidade ociosa acha-se esgotada, e as expectativas começaram a ser frustradas pela impossibilidade de se caminhar na direção anterior, em que todos ganhavam; atingiu-se o que se chama em economia de uma "fronteira de Pareto", na qual o crescimento da renda de uns implica a redução da de outros. Concretamente, o conflito se resolve pela inflação. No caso do câmbio congelado, como é o caso do Cruzado, a inflação interna realoca recursos para o atendimento da demanda doméstica, e no caso do mercado de mão-de-obra, redistribui renda do capital para o trabalho, já que preços são administrados e salários acham-se livres e ascendentes em termos reais. Neste caso surge a incompatibilidade entre o crescimento da demanda (interna e externa) e o da oferta. As expectativas de redução das margens corroem o otimismo dos empresários, que preferem não investir; o capital externo se retrai, e o governo vê sua capacidade de poupança totalmente anulada.

Nessa fase conjuntural tornam-se necessárias definições e opções dolorosas. A demanda precisa ser contida, os aumentos salariais não podem superar os acréscimos de produtividade, e o câmbio necessita de ajustamentos para evitar o colapso do sistema produtivo. Em outras palavras, um programa de combate à inflação não mais prescinde da política econômica tradicional; nesse sentido, o Plano Cruzado, que foi inicialmente tido como um milagre, um ovo de Colombo, corre o risco de ser nada mais que um breve interlúdio na crônica inflação brasileira.

Marcos Cintra Cavalcanti de Albuquerque é doutor em Economia pela Universidade de Harvard (EUA), professor titular da Fundação Getulio Vargas (FGV) em São Paulo e consultor de Economia da Folha.

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