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  • Marcos Cintra

Ainda pode piorar, ate melhorar

A disposição de negociar recentemente exibida pelo presidente da República merece aplausos. Chega mesmo a reverter, ainda que tenuemente, o pessimismo e o sentimento de desastre iminente que tomou conta do país desde a divulgação dos últimos índices de inflação, principalmente a partir de julho. Cabe indagar, contudo, se esta tentativa de entendimento tem substância.


Na conversa com representantes do empresariado, houve uma tentativa de acordo. Em troca de redução das taxas de juros, as empresas conteriam os aumentos de preços. Ao que parece, não houve concordância. Ainda bem. Na atual conjuntura, uma súbita redução das taxas de juros poderia ser desastrosa. Juros altos impactam preços, antes de terem efeitos contencionistas na demanda agregada. Nesse sentido, a súbita e recente elevação dos juros, após alguns meses de taxas reais negativas, foi um erro.


Em um plano de estabilização, os juros precisam ser positivos. Não apenas quando a inflação ameaça mostrar aceleração, mas preferencialmente nas fases de inflação baixa. Em outras palavras, a taxa de juros deveria ser colocada em níveis positivos logo após o congelamento, e anunciado que seria mantida naquele patamar ao longo de todo o programa de estabilização.


O governo fez o inverso. Manteve os juros baixos nas fases iniciais do congelamento e os elevou concomitantemente com a aceleração dos aumentos de preços. O resultado é inevitável: choque nos custos de produção e o resultante repasse a preços.


No momento, o recuo seria ainda mais desastroso. A queda dos juros e a redução nos custos financeiros não seriam percebidos como permanentes pelos agentes econômicos. Haveria antecipação de consumo por parte dos consumidores e formação de estoque por parte dos produtores e comerciantes.


Mais surpreendente ainda é o governo propor à meia dúzia de grandes empresários que se comprometessem, em nome de todo o setor produtivo, a não aumentar preços. Com que legitimidade este acordo estaria sendo selado?


Há necessidade de entendimento e de compromissos de todas as partes. Este processo, porém, exige ampla preparação, um plano consistente de reformas econômicas e, sobretudo, uma grande liderança política que coordene a busca do consenso. Estas condições estão sendo preenchidas hoje? Infelizmente, não.



MARCOS CINTRA CAVALCANTI DE ALBUQUERQUE, 45, é doutor pela Universidade de Harvard (EUA), professor da Escola de Administração de Empresas de São Paulo da Fundação Getulio Vargas, consultor de economia da Folha e presidente regional do PDS.

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