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  • Marcos Cintra

Intervencionismo insensato

A revista inglesa The Economist publicou, na edição de 21 de janeiro de 2012, uma matéria especial com o título "The Visible Hand", onde informa que a crise do capitalismo liberal ocidental coincidiu com a ascensão de uma poderosa forma de capitalismo de Estado nos mercados emergentes. No caso do Brasil, a matéria cita que o país vive uma fase de intervencionismo insensato ao obrigar que a Petrobras utilize fornecedores locais, que têm custos mais elevados, e determinar que a mineradora Vale mantenha funcionários que não necessita, e ainda afasta seu presidente, mesmo ele sendo reconhecido como um executivo bem-sucedido à frente da empresa.


A questão colocada pela The Economist deve ser analisada com ponderação. Não deveria servir de parâmetro para o governo brasileiro usar como se fosse uma tendência. Nela, a revista enfatiza a China, cuja intervenção estatal envolve um elevado conteúdo ideológico, e alguns casos de países ricos, cuja atuação do poder público está restrita a alguns setores considerados estratégicos por eles.


Nas eleições de 2010, o então presidente Luiz Inácio Lula da Silva declarou que, para gerar desenvolvimento econômico, os governos devem ser grandes e fortes. Dilma Rousseff, candidata à presidência na ocasião, defendeu essa crença ao afirmar que um Estado forte é necessário para instalar no país um novo 'desenvolvimentismo'. Fui aluno, na Universidade de Harvard, de um famoso historiador econômico, o professor Alexander Gerschenkron. Ele mostrou que países como França e Alemanha construíram Estados grandes e fortes para complementarem o setor privado no deslanche do processo de crescimento de suas economias. Tais governos investiram em bancos, indústrias e serviços de transportes e comunicação tendo como padrão comparativo a Inglaterra, onde tais investimentos eram privados. Mas isso foi no século 19. Naquele momento, a presença pública tornou-se necessária para suprir a falta de capitais privados, que eram escassos na Europa continental. Assim, o papel substitutivo do Estado foi essencial para alavancar o desenvolvimento naquelas economias.


No Brasil ocorreu algo semelhante. O processo de desenvolvimento econômico com base na intervenção estatal direta foi utilizado no governo de Getúlio Vargas, nos anos 1940, quando foram criadas empresas como a CSN, a Petrobras e a Vale do Rio Doce. Naquela época, seria impossível dar impulso à industrialização brasileira sem a ação do Estado.


O Brasil atual não deveria adotar uma postura intervencionista sem limites, insensato como classificou a The Economist. O país precisa rever ideias ultrapassadas, que vira e mexe voltam à tona através de políticos e burocratas reféns de velhos dogmas, como os que pregam um Estado grande e forte nos moldes do século 19 na Europa ou dos anos 1940 no Brasil.


Hoje quem tem recursos e competência para produzir e gerar emprego é o setor privado. Historicamente, o poder público no Brasil demonstrou um inusitado apetite pelo endividamento e por impor ônus tributário excessivo. O defunto redivivo da estatização implica o risco de tolher o desenvolvimento do país, além de custar muito caro ao contribuinte.


 

(*) Marcos Cintra é doutor em Economia pela Universidade Harvard (EUA), professor titular e vice-presidente da Fundação Getulio Vargas.


Publicado na Revista Siderurgia Brasil: Março de 2012

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