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Zoneamento e justiça

Marcos Cintra - Folha de S.Paulo
3 de dez. de 1995
2 min de leitura

Atualizado: 30 de mar. de 2021


A cidade de São Paulo está em polvorosa. Com base na lei que rege o uso e a ocupação do solo, a prefeitura iniciou programa de fiscalização para coibir o funcionamento de empresas em áreas residenciais.

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Os infratores estão sendo multados e notificados para encerrar suas atividades em 24 horas, com ameaça de uso de força policial.

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A lei está sendo cumprida. Mas quem está errado? Quem é a vítima e quem é o infrator?

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A lógica econômica é implacável. Uma empresa não se instala em área estritamente residencial. Portanto, ainda que pela lei a região seja residencial, ela já deixou de sê-lo antes de as empresas se instalarem.

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As zonas residenciais estão sendo corroídas lentamente. Mas a diferenciação entre uso residencial e comercial está cada vez mais nebulosa.

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A informatização, as "info-highways", os meios de comunicação e a expansão do "setor terceário" tornaram indefinida a diferenciação entre local de trabalho e moradia.

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Um psicanalista que atende três clientes por dia em casa gera um fluxo de pessoas e de veículos bem inferior que uma dona-de-casa que todo dia convida amigas para jogar tranca.

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Outra fonte de destruição das Z-1 vem do fluxo de veículos. A desestabilização da área vem, com frequência, dos engenheiros de tráfego da prefeitura, que desviam os veículos para regiões residenciais.

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Outra culpada é a prefeitura, que, por décadas, é negligente, e até conivente, com as irregularidades que hoje combate.

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As empresas que estão sendo fechadas não são clandestinas. Não estão escondidas. Muitas funcionam há anos. Os endereços são veiculados na mídia, cartazes anunciam sua presença nas ruas e os carnês de IPTU são lançados nos locais.

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Há que se cumprir a lei. Mas que se dê prazo razoável para a regularização ou transferência das empresas. Vou apresentar projeto nesse sentido na Câmara Municipal de São Paulo.

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Não é apenas uma questão de justiça. Trata-se também de preservar empregos, investimentos e, sobretudo, de propiciar tempo e oportunidade para se discutir e rever as atuais regras de zoneamento da cidade.

Marcos Cintra Cavalcanti de Albuquerque, doutor em Economia pela Universidade de Harvard (EUA).

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