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  • Marcos Cintra

Falar menos e agir mais

A conclusão é inevitável: se o governo prosseguir na atual estratégia de contemporização e não atacar imediatamente as causas estruturais das pressões de aumento de preços, a hiperinflação chegará inexoravelmente. Os índices de atacado apontam para uma alta ainda mais acelerada nos preços; os salários nominais estão sendo elevados vigorosamente; as expectativas se desestabilizam e ao longo dos últimos dez dias, os preços de ativos-refúgio como o dólar e o ouro - sem falar nos imóveis e bens de consumo durável - acham-se em alta contínua.


Cabe apontar que as valorizações recentes nos mercados especulativos não vêm sendo acompanhadas por surtos de realização de lucros. Isso indica que as altas não estão sendo motivadas por intenções especulativas que implicam necessária conversão de volta ao padrão monetário que iniciou a operação, mas sim por movimentos de fuga da moeda, sem intenção de volta, o que seria de esperar uma vez atingida a meta planejada de retorno financeiro. Enquanto perdurar este comportamento, o risco de uma explosão hiperinflacionária é concreto.


Dificilmente a estratégia adotada em julho pelo governo de convencer os agentes econômicos de que tudo vai bem dará certo agora. A alegação de que a indexação generalizada da economia evitaria a hiperinflação não é correta. De uma forma ou de outra, formal ou informalmente, todas as economias que conviveram com elevadas taxas de inflação acabaram se indexando. Mas nem por isso, em muitos casos, deixaram de sofrer os efeitos de uma hiperinflação. Outra argumentação comum é a de que a economia vai bem, com aumento das taxas de emprego, e que isso seria um indício da resistência do sistema contra a explosão inflacionária. Mais uma vez esta argumentação não encontra qualquer sustentação. Ao contrário, o aquecimento econômico é indício típico de situações pré-hiperinflacionárias. As vendas aumentam por antecipação de compras; as empresas formam estoques; a liquidez aumenta. Existe uma ilusória impressão de euforia, com altos lucros e aumentos de salários nominais.


A intenção de manter juros reais elevados será permanentemente frustrada pela aceleração inflacionária. Contudo, se o governo se antecipa aos índices oficiais de inflação e puxa as taxas de juros, existe o risco de exacerbação das expectativas, o que anularia a eficácia da medida. As quedas nos índices de liquidez real da economia, como meta de política monetária, também não encontram efetividade, pois a demanda por moeda se desloca ainda mais rapidamente, tornando ineficaz a tentativa de controlar a liquidez.


As estratégias que o governo anuncia não serão capazes de controlar a situação. Na base da conversa, também não. Menos conversar e mais agir é o que se precisa. A alegação de que a indexação generalizada da economia evitará a hiperinflação não é correta. Se o governo continuar na atual estratégia de contemporização e não atacar imediatamente as causas estruturais dos aumentos de preços, a hiperinflação se tornará inevitável.


MARCOS CINTRA CAVALCANTI DE ALBUQUERQUE, 43, é doutor pela Universidade de Harvard (EUA), diretor da Escola de Administração de Empresas de São Paulo da Fundação Getúlio Vargas e consultor econômico da Folha.


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